Nº5

Nº 5 – Abril de 2018 | Sumário

Na capa: pintura de Miguel Carneiro – 304 pp.

JH • Humano aumentado
Eduardo Viveiros de Castro • Os involuntários da pátria
Ailton Krenak • Do Sonho e da Terra
Eliane Potiguara • Brasil (poema)
Felipe Milanez • A vida contra o progresso/crescimento e contra a ordem genocida
Daniel Munduruku • Escrita indígena: registro, oralidade e literatura
Daniel Munduruku • A milenar arte de educar dos povos indígenas
Survival International • O mais longo genocídio – Introdução à história
dos povos indígenas no Brasil
JH • O martírio dos Guarani Kaiowá
Debra Harris • Invasão da alta tecnologia: o biocolonialismo
Georges Lapierre • O Votán Zapata
Pedro García Olivo • Porque chora o milho?
Fernando Gonçalves e Júlio Henriques • Para uma antologia da poesia ameríndia contemporânea – Poemas de Joy Harjo e Jack D. Forbes
Fernando Gonçalves • «Por amor ao povo, por amor à terra»: a geografia do sacrifício e do desapossamento na poesia de Simon J. Ortiz
Joëlle Ghazarian • No âmago da resistência yanomami | Um acontecimento literário e filosófico: A Queda do Céu, autobiografia do xamã yanomami Davi Kopenawa
Francis Dupuis-Déri e Benjamin Pillet • Anarco-indigenismo
H. D. Thoreau • Quem de dia dorme e de noite anda a pé: três poemas
Macedonio Fernández • O bobo inteligente
Jorge Leandro Rosa • A exorbitância do político na sociedade industrial, seguido de
200 anos de resistência à sociedade industrial
Álvaro Fonseca • O tenebroso mundo novo da utopia tecnocientífica
António Cândido Franco • A «arte bruta» de Afonso Cautela
David Watson • O que foi que nos subjugou? Dois poemas
Ana Cardoso Pires • Boa Fé, o reality show do ouro
JH • Miguel Pérez Corrales e a Lusitânia Fantasma
Quim Sirera • Agarrados (poema)
Pedro Fidalgo • A população contra os decisores | A história da ZAD de Notre Dame des Landes
Agustín García Calvo •Turismo
Paulo Ramalho • O barco-chamado-mundo (poema)
John Zerzan • O industrialismo e os seus descontentamentos – Dos ludditas e dos seus herdeiros
Jesús Sepúlveda • Como um manicómio de vozes (poemas)
Dilar Dirik • Rojava: feminismo e movimento curdo de libertação
Ana Tomás • Séances: discurso sobre o invisível no vale do Swat, noroeste do Paquistão
Anselm Jappe • Emancipação ou barbárie | Uma entrevista de Alastair Hemmens
Grupo Oblomof • Uma crítica radical da tecnociência
Jorge Leandro Rosa • E o teu epílogo à sociedade industrial, Illich?
Paulo Barreiros • «Planeta Azul» | Um ilusionismo eficaz: a conquista espacial
Julio Cortázar • O tesouro da juventude
Maria de Magalhães Ramalho • A deriva na Internacional Letrista: para uma crítica radical do urbanismo
JH • Ginsengue (poema)
Phil Mailer • O Brexit, a pérfida Albion e a necessária destruição da Europa capitalista
Emanuel Cameira • Matéria-prima
Ana Marques • Cibernética e linguagem

Do nº 5

O que aprendi ao longo dessas décadas é que todos nós precisamos despertar, porque, se durante um tempo éramos nós, os povos indígenas, que estávamos ameaçados de ruptura ou da extinção dos sentidos das nossas vidas, hoje estamos todos diante da mesma iminência de a Terra não suportar a nossa demanda. Como disse o pajé yanomami Davi Kopenawa, o mundo acredita que tudo é mercadoria, ao ponto de projectar na mercadoria tudo o que somos capazes de experimentar. […] Esta quase tragédia que agora nos atinge a todos é adiada em alguns lugares, em algumas situações regionais onde a política – o poder político, a escolha política – compõe espaços de segurança temporária em que o colectivo, as comunidades, mesmo quando já esvaziadas do verdadeiro sentido de compartilhar os espaços, ainda são, digamos, protegidas por esse aparato que depende cada vez mais da exaustão das florestas, dos rios, das montanhas, colocando-nos num dilema em que parece que a única situação provável de continuarem a existir comunidades humanas com algum suporte para a continuidade da sua organização social, da sua actividade criativa, é à custa da exaustão de todas as outras partes da vida. — Ailton Krenak

Não sei muito bem como é possível, mas a verdade é esta: sou um índio. Não o sabia antes de ter encontrado os Índios, no México e no Panamá. Sei-o agora. Não sou talvez um índio muito bom. Não sei cultivar o milho nem afeiçoar uma piroga. O peiote, o mescal ou a chicha mastigada não exercem em mim grande efeito. Mas, quanto ao resto, quanto à maneira de andar, de falar, de amar ou de ter medo, posso dizer o seguinte: quando encontrei esses povos índios, eu, que não julgava por aí além ter família, senti-me como se de repente tivesse conhecido milhares de pais, de irmãos e de esposas. […] O encontro com o mundo índio não é hoje um luxo. Tornou-se uma necessidade para quem quer compreender o que se passa no mundo moderno. — J.M.G. Le Clézio


A ideia fixa da terceira revolução industrial é esta: o que pode ser feito deve obrigatoriamente ser feito. O mundo é encarado como uma mina a explorar. Não só somos intimados a explorar tudo quanto for explorável, como temos também de descobrir a explorabilidade «oculta» em todas as coisas, inclusive no homem. A tarefa da ciência actual já não consiste em descobrir a essência secreta e escondida do mundo ou das coisas, ou as leis a que obedecem, mas sim em descobrir a possível utilização que o mundo ou as coisas dissimulam. A hipótese metafísica das investigações actuais é portanto que não há nada que não seja explorável. «Para que serve a Lua?» Nem por instantes se perde a esperança de que ela deva servir para qualquer coisa.
À questão de saber o que deve ser encarado como «mundo» deram-se no decurso da história três respostas muito diferentes (o «cosmos», a «criação», o «objecto do conhecimento» ou «o conjunto dos processos físicos»). Se esta mesma questão for posta agora, a resposta só pode ser a seguinte: o mundo é «a matéria-prima». O mundo não é encarado como algo «em si», mas como algo «para nós» […] Por analogia com as vidas «que não merecem ser vividas», de que falavam os nacionais-socialistas, há existências «que não merecem existir». Em suma, para existir, é preciso ser-se matéria-prima: ser é «ser matéria-prima» ‒ tal é a metafísica fundamental do industrialismo. — Günther Anders

Que significado pode ter hoje um colóquio sobre «Resistência à sociedade industrial»? A «Revolução Industrial» (Adolphe Blanqui) foi sempre desafiada por vários e sensatos motivos. Não houve sociedade em processo de industrialização que não provocasse reacções de oposição, se não mesmo o desejo de destruí-la. Muitas dessas reacções foram criativas e inovadoras. Resistências e tentativas de sabotagem eclodiram logo no século XVIII […]. Mas precisamos, certamente, de uma resposta um pouco mais longa: embora não estejamos a assistir a muitas acções contra as nossas máquinas, até porque muitos de nós nos tornámos seus proprietários ou fomos habituados a nos considerarmos seus beneficiários, os efeitos da Revolução Industrial continuam a alargar as suas consequências nefastas sobre as nossas vidas. — Jorge Leandro Rosa