Nº4

Nº 4 – Abril de 2017 | Sumário

Na capa: pintura de Tiago Mourato – 264 pp.

JH • Das permanentes ameaças do Progresso
Quim Sirera • A nossa insuportável solidão
Jorge Leandro Rosa • O que nos ensina a história do movimento ecológico
Paulo Barreiros • A pior herança de Darwin
Pierre Clastres • A questão do poder nas sociedades primitivas
Pearson Mckinney • Da construção do sexo entre os ameríndios
Georges Lapierre • A comunalidade como teoria e como prática
Fernando Gonçalves e Júlio Henriques • Para uma antologia da poesia ameríndia contemporânea – Poemas de Diane Burns, Simon J. Ortiz, Mary Tallmountain, Gerald Vizenor, Éléonore Sioui, Joséphine Bacon, Jean Sioui, Charles Coocoo, Rita Mestokosho
Joëlle Ghazarian • A minha pátria é o cinema – Os filmes de José Vieira
Amélia Resende, Júlio Henriques, Sakarina • Francesca, in memoriam
David Watson • Dois poemas
Anabela Duarte • Música e tortura no Estado Novo
Jorge Valadas • Da fugitiva memória da guerra colonial
Júlio Henriques • Mitologia colonial: presente!
Carlos da Fonseca • Mitos e lendas bíblicas no teatro português de temática operária
Manuel Vaz • Éforos futuros
Ljubodrag Simonoviċ • O desporto como religião do capitalismo
Henri Michaux • O desportista na cama
George Orwell • O espírito desportivo
Rui Baião • Recapitulando – poema e fotos
Peter Watkins • Crise dos média
JH • Primeira retrospectiva em Portugal do cinema de Peter Watkins
Júlio do Carmo Gomes • Urro
Jesús Sepúlveda • À espera dos bárbaros – Quem são os bárbaros? Os refugiados ou quem os obriga a fugir?
Stefan Zweig • Fronteiras
Paulo Ramalho • Corpo raiz
David Watson • O império e a sociedade massificada
Corsino Vela • Sobre a sociedade implosiva
Pedro Morais • A felicidade artificial no admirável mundo novo
Francisco Cardo • Signo e sul
Jeff Halper • Como pode Israel sair impune?
Götz Eisenberg • Vêm aí os «psicopatas» – Cântico fúnebre à «era do narcisismo»
JH • Desfoque
Alessandro Pozzan • Extensionismo moral – Os direitos dos outros animais
Tiago Mesquita Carvalho • A bicicleta e o ludismo
Joëlle Ghazarian • Uma tentação aracnídea – Ausência e presença do surrealismo em Portugal
Survival International • Em defesa dos povos indígenas
JH e Joëlle Ghazarian • Anotações & leituras
António Louçã • Mário Soares, um Ebert português
Artur Queiroz • Uma tragédia a dobrar: o jornalismo português e a morte de Mário Soares
Henry David Thoreau • Três poemas

Do nº 4

A grande verdade do nosso tempo (que não serve para grande coisa simplesmente saber, mas sem o conhecimento da qual não podemos chegar a nenhuma verdade importante) é que as nossas paragens estão a cair na barbárie porque a propriedade privada dos meios de produção é conservada à força. — Bertolt Brecht

O homem moderno despersonalizou-se tão profundamente que já não é homem para fazer frente às suas máquinas. O homem primitivo, contando com o poder da magia, tinha confiança na sua capacidade de dirigir as forças naturais e de as dominar. O homem pós-histórico, que dispõe dos imensos recursos da ciência, tem tão pouca autoconfiança que está pronto a aceitar a sua própria substituição, a sua própria extinção, de preferência a ter de parar as máquinas ou mesmo a fazê-las funcionar com menor rotação. Erigindo como absolutos os conhecimentos científicos e as invenções técnicas, transformou a potência material em impotência humana; preferirá cometer um suicídio universal acelerando o curso da investigação científica a salvar a espécie humana abrandando-o, mesmo que seja de forma temporária.
Nunca anteriormente o homem se viu tão liberto dos constrangimentos impostos pela natureza, mas nunca, também, foi tão vítima da sua própria incapacidade para desenvolver em plenitude as suas características especificamente humanas; em certa medida, perdeu o segredo da sua humanização. O estádio supremo do racionalismo pós-histórico, podemos predizê-lo com firmeza, levará ainda mais longe um paradoxo já visível: não só a própria vida escapa ao domínio do homem tanto mais quanto os meios de viver se tornam automáticos, como o produto derradeiro – o próprio homem – se tornará tanto mais irracional quanto mais se racionalizarem os métodos de produção.
Em suma, o poder e a ordem, levados ao extremo, invertem-se no seu contrário: desorganização, violência, aberração mental, caos subjectivo. — Lewis Mumford

Em suma, o poder e a ordem, levados ao extremo, invertem-se no seu contrário: desorganização, violência, aberração mental, caos subjectivo. — Lewis Mumford