Nº3

Nº 3 – Outubro de 2015 | Sumário

Na capa: pintura de Tiago Mourato – 184 pp.

JH • No pó de um mistério: cidadãos ou súbditos
Jorge Valadas • O tenebroso enigma dos investigadores que investigam mal – A revolução portuguesa, o controlo operário e o que falta
Francisco Cardo • Sul (poema)
Maria de Magalhães Ramalho • Realizar a poesia: Guy Debord e a Revolução de Abril
José Miguel Pérez Corrales • Portugal: uma elegia
JH • Sacrificiais (poema)
Federico Corriente e Jorge Montero • Questionário sobre o desporto no mundo contemporâneo
Joëlle Ghazarian • Desaforismos
Fernando Gonçalves e Júlio Henriques • Para uma antologia da poesia ameríndia contemporânea – Poemas de Duane Niatum, Anita Endrezze, Jimmie Durham, Gail Tremblay, Wendy Rose, Rita Mestokosho, Adrian C. Louis, Janet Campbell Hale, Lance Henson, Louis (Little Coon) Oliver, William Oandasan, Laura Tohe
Fernando Gonçalves • O sequestro da História – A negação do genocídio nos Estados Unidos da América
Raúl Llasag Fernández • Da Pachama aos Direitos da Natureza na Constituição Plurinacional do Equador
Georges Lapierre • Cosmogonia índia e pensamento ocidental
Alessandro Pozzan • Filosofia ambiental
Edward Abbey • Estranheza e deslumbre
David Watson • A anarquia e o sagrado
Paulo Barreiros • Tripalium
Manuel Vaz [Brás da Costa] • O tempo suspenso
Pedro Morais • Fuga, margem e desespero – Um encontro com Pedro García Olivo
Albert Cossery • Uma época de filhos de cães
Pedro Fidalgo • O olhar censurado de Edvard Munch, filme de Peter Watkins
David Watson • Labirinto (Teseu, Minotauro, Ariadne), poema
Joëlle Ghazarian • Valeu a pena a travessia? Sobre o filme Mudar de Vida – José Mário Branco, Vida e Obra, de Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro
Paul Mattick, Jr. • Muito barulho por alguma coisa – Sobre O Capital no Século XXI, de Thomas Pikety
Júlio Henriques • Os povos tribais no mundo contemporâneo – Sobre Tribal Peoples for Tomorrow’s World, de Stephen Corry
JH • Um poeta não versejador – memória de Arthur Toukkourt, aliás Christian Marchadier
JH • Anotações & leituras
Paulo da Costa Domingos • Vítor Silva Tavares, 1937-2015

Do nº 3

Numa escala ainda maior, a megamáquina modernizada tem reproduzido todas as primitivas características da antiga forma de construção de pirâmides. E tal como as estáticas estruturas físicas sustentavam a crença do devoto na validade das pretensões do faraó à divindade e à imortalidade, as novas formas dinâmicas do complexo piramidal – arranha-céus, reactores atómicos, armas nucleares, auto-estradas, foguetões espaciais, centros de controlo subterrâneos, abrigos nucleares colectivos – parecem igualmente validar e exaltar a nova religião. Nunca nenhuma outra religião produziu tantas manifestações de poder, levou a um tão completo sistema de controlo, uniformizou tantas instituições separadas, suprimiu tantas formas de vida independentes ou alguma vez declarou um tão grande número de adoradores que por palavras e actos testificam o reino, o poder e a glória dos seus deuses nucleares e electrónicos. Os milagres efectuados pelo sacerdócio tecnocrático são verdadeiros; mas são espúrias as suas pretensões de divindade. — Lewis Mumford

Não nos parece má-fé ou ignorância, e ainda menos falácia, que certos povos indígenas não explorem os recursos naturais com fins comerciais e tenham sobrevivido, durante milhares de anos, segundo uma concepção de vida afastada do conceito de «desenvolvimento» e longe do extractivismo dito sensato ou indispensável; entre alguns povos, o extractivismo e a ideia de desenvolvimento não têm cabimento. — Raúl Llasag Fernández

Descobrir a existência dos povos originários, que durante mais de quinhentos anos souberam resistir à dominação ocidental, compreender qual é a sua importância na luta contra a actividade capitalista e as forças de decomposição social, levou-nos a fazer a nossa pequena revolução coperniciana. […] A oposição ao capitalismo seria obra dos povos que se encontram directamente confrontados com os seus avanços, que constituem obstáculos à sua completa dominação. Nós que pensávamos estar no centro do mundo e na vanguarda da mudança e da revolução, vimo-nos assim brutalmente marginalizados, e aqueles de quem tínhamos desdenhado encontravam-se na parte dianteira do combate. — Georges Lapierre