Nº2

Nº 2 – Março de 2014 | Sumário

Na capa: pintura de Tiago Mourato – 122 pp.

JHNovos descobrimentos portugueses
Óscar Faria • Bolor (uma visão do arruinamento da cidade)
Miguel Teotónio Pereira • Crónica da crise
Jorge Valadas • Anti-amnésia, seguido de A versão dos vencedores
Jacques Ellul • Autonomização da Técnica
Christian Ferrer • In memoriam: os ludditas
Los Amigos de Ludd • George Orwell, crítico da Máquina
Fernando Gonçalves e Júlio Henriques • Para uma antologia da poesia ameríndia contemporânea – Poemas de Eliane Potiguara, Paula Gunn Allen, Hugo Jamioy, Leslie Marmon Silko, Joy Harjo, Louise Erdrich, Peter Blue Cloud, James Welch
Quim Sirera • O Encontro de Vícam (I Encontro de Povos Indígenas das Américas – Sonora, México)
Georges Lapierre e Quim Sirera • Indigenismo e comunalismo
Paulo Barreiros • O espírito da terra – Notas sobre a dessacralização da natureza
Vítor Silva Tavares • Manuel João Gomes, escriba & etc
Óscar Faria • Disparates – Em memória de Manuel João Gomes
Júlio Henriques • Da miséria no meio estudantil (continuação sem fim)
Joëlle Ghazarian • Peter Watkins, nómada do cinema
Survival International • Em defesa dos povos indígenas

Do nº 2

Toda a nossa situação moral foi modificada pela tecnificação da existência. A tecnificação da existência é o facto de todos nós (sem o sabermos e de forma indirecta, quais peças de uma máquina) nos vermos implicados em acções cujos efeitos somos incapazes de prever e que não poderíamos aprovar. A técnica trouxe com ela a possibilidade de sermos inocentemente culpados, de uma forma que não existia no tempo dos nossos pais, quando ela ainda não tinha avançado tanto. […]
Embora eu não seja nenhum fanático em assuntos religiosos nem políticos, estou convencido de que a crise em que todos estamos imersos exige que reexaminemos profundamente todo o nosso sistema de valores e fidelidades. No passado, houve épocas em que os homens puderam passar pela vida sem a si mesmos fazerem perguntas muito profundas a respeito dos seus hábitos de pensamento e das suas formas de agir. Mas hoje é muito evidente que os tempos mudaram. Mais: creio que nos encaminhamos rapidamente para uma situação em que nos veremos obrigados a reconsiderar até que ponto estamos dispostos a transferir para as diversas instituições sociais (partidos políticos, sindicatos, Igreja ou Estado) a responsabilidade relativa aos nossos pensamentos e aos nossos actos. Nenhuma destas instituições é suficientemente capaz de emitir um juízo moral infalível, sendo por isso necessário pôr em questão a pretensão de qualquer uma delas emitir um juízo moral. — Günther Anders

Ao passo que nas civilizações tradicionais o aspecto social e o aspecto económico se encontram inextricavelmente ligados num todo comunitário, na sociedade técnica os dois aspectos são rigorosamente separados, o que dissolve todo o grupo. Separando-se as duas actividades conjuntas (de produção e de relação), isso arruína forçosamente toda a sociedade. […] A técnica conquistou progressivamente todos os elementos da civilização. Já o referimos quanto às actividades económicas ou intelectuais; mas o próprio homem é conquistado pela técnica, torna-se um objecto da técnica. — Jacques Ellul

A utopia capitalista assenta o seu programa na por assim dizer baixeza dos indivíduos e das comunidades. Os amanhãs que cantam nessa utopia são os da barbárie. […] Do que ela gosta mesmo é da ramificação subterrânea, silenciosa, anónima, da fraude encoberta, das cumplicidades rasteiras e dissimuladas, do incremento e aproveitamento «natural» do medo, da subserviência, da massificação da estupidez e da ignorância. — Miguel Teotónio Pereira

Extremamente frutíferos e marcantes costumam ser os passeios em busca do «espírito da terra». De inspiração britânica, este exercício de interpretação da paisagem procura conhecer a sua hierofania e aprofundar o nosso respeito e a nossa identidade cultural, ao mesmo tempo que estimula o desenvolvimento da nossa espiritualidade telúrica. Ao deambularmos por uma determinada região, devemos tentar localizar (através de monumentos, vestígios arqueológicos, mitos e lendas locais) os sítios que durante muito tempo foram de culto. Depois, tentamos interpretar os motivos que levaram os homens a sentirem-se profundamente atraídos e até a venerar certas particularidades paisagísticas; o que terá ficado desse espírito nas populações locais; a explicação dos rumos seguidos por certos caminhos, o facto de algumas árvores seculares terem sido poupadas, etc. Os centros de poder telúrico que o homem identifica na Terra destinam-se a tentar aplacar a nossa crescente fome espiritual. — Paulo Barreiros