Nº1

Nº 1 – Janeiro de 2013 | Sumário

Na capa: foto de Claudia Andujar – 72 pp.

Este primeiro número é dedicado a Herberto Helder, que fez entrar na poesia a Visão das culturas vernaculares

Prólogo • A complexidade das sociedades contemporâneas é o resultado de uma guerra social
Jerry Mander • Na ausência do sagrado
Charles Reeve • O pesadelo acordado do povo português
Simon J. Ortiz • Dois poemas
François Chevallier • Autodesprezo – Anotação sobre a arte contemporânea
William H. Kötke • Um novo mundo
Günther Anders • Canibalismo pós-civilizacional
Jean Clair • Eufemismos políticos
Survival International • Em defesa dos povos indígenas
Ernesto Cardenal • Serra Nevada – poema sobre o povo ameríndio Kogui, da Colômbia
Teri C. McLuhan • Os Koguis
David Watson • Seis teses sobre a energia nuclear
Dietmar Sedlmayr • Origens da ideologia do progresso
N. Scott Momaday • Canção de júbilo de Tsoai-Tali
Jean Liedloff • O Princípio de Continuidade
Júlio Henriques • Viver sem televisão
N. Scott Momaday • Cemitério da montanha chuvosa
JH • A civilização avança

Do nº 1

A complexificação da «sociedade moderna» tem sido a resposta das classes dominantes às tentativa populares para pôr em causa o seu domínio e criar qualquer coisa de decente, Deste modo, quanto mais complexa é a organização política e económica, mais opaca se revela a tirania de facto que incrementa tais coisas, medrando a olhos vistos os seus meândricos poderes e prosperando o carácter mafioso de que se revestem os negócios.— Júlio Henriques, «Prólogo»

Ninguém vive completamente separado da terra; um tal isolamento é inimaginável. Devemos pois, mais tarde ou mais cedo, conciliar-nos com o mundo que nos rodeia. Tenho em mente sobretudo o mundo físico, não apenas como no-lo revelam de imediato os nossos sentidos, mas também como o vamos apreendendo, com mais verdade, ao longo das estações e dos anos. Porque temos de chegar a um acordo moral com este mundo. A meu ver, não há alternativa, se quisermos realizar e conservar a nossa humanidade; o ideal ético e prático de preservação faz necessariamente parte da nossa humanidade.
Duvido que algum de nós saiba orientar-se pelas estrelas e os solstícios. O nosso sentido da ordem natural embotou-se, tornou-se pouco fiável. A esfera dos nossos instintos reduziu-se, tal como se reduziu a nossa capacidade de conceber a realidade da própria natureza selvagem. No entanto, e apesar disso, creio ser possível formularmos uma ideia ética da terra – uma noção daquilo que ela é e do que deverá ser no nosso dia-a-dia. E creio sobretudo que isso é absolutamente necessário. — N. Scott Momaday

Ao longo das últimas décadas têm-se desgastado as extravagantes pretensões da utopia tecnológica e da abundância ilimitada. O sonho da energia nuclear tornou-se mais propriamente um pesadelo em que pairam acidentes aterradores, impressionantes transbordamentos de custos e o interminável problema dos resíduos nucleares. No entanto, a discussão pública, no que diz respeito aos que administram a indústria nuclear, continua a ser pouco mais do que uma diversão táctica destinada a mudar periodicamente as roupas do imperador para hipnotizar a população. Não têm qualquer intenção de desistir, custe o que custar.
Com efeito, a energia nuclear é necessariamente totalitária. Desde o início, à semelhança dos dementes médicos de Buchenwald, os tecnocratas nucleares fizeram experiências com populações inteiras. Pessoas inocentes, em incontável número, foram utilizadas como objectos de experiências secretas, povoações e cidades inteiras como Los Angeles foram propositadamente medicadas com poeiras radioactivas, populações indígenas foram retiradas das suas terras para estas serem suprimidas em testes nucleares, soldados foram mobilizados para zonas radioactivas para testar os efeitos da exposição humana. E estas são apenas as experiências de que temos conhecimento, e que ocorreram, não só em ditaduras do bloco de Leste, mas também no «democrático Ocidente». — David Watson